Bela Enxaqueca
Às
vezes ela enxergava um ponto dourado brilhante
a tremeluzir. Esse ponto ia se transformando em
uma serpente, crescendo a ponto de atrapalhar
sua visão. A serpente sumia e algum tempo
depois vinham náuseas. Uma dor apontava
na cabeça, começava a latejar e
ficava cada vez mais forte. Bela se via obrigada
a deitar, pois, ao menor movimento, barulho ou
luminosidade, tinha ânsia de vômito
e a dor piorava. Fechava as cortinas, colocava
tampões nos ouvidos e ficava ali, inerte
por horas. No dia seguinte estava melhor. Os meses
foram passando e aquilo se repetia. Mas, o mal
foi se tornando mais freqüente e passou a
perdurar por três longos dias. Às
vezes aparecia duas vezes na mesma semana.
No reino já corriam boatos de que a princesa
teria sido novamente amaldiçoada.
O tempo foi passando e Bela piorando. Sua alegria
desapareceu. Seu semblante se tornara pesado.
Ficava irritada com qualquer coisa. Abandonou
todos os compromissos. Deixou de lado tudo que
mais gostava: viajar, escutar música, ler,
conversar com os amigos, caminhar ao entardecer.
Não conseguia entender o que acontecia,
mas era como se uma indisposição
enorme tomasse conta dela o dia inteiro. Só
podia ser um feitiço!
Foram convocados os melhores curandeiros do reino.
Tentaram ervas, ungüentos e até bruxaria.
Mas, nenhuma poção conseguia cortar
aquela agonia.
Enquanto enxaquecosos somos como princesas envenenadas,
presas nas torres, a espera de um antídoto
que nos liberte das correntes da doença.
Olhamo-nos através do espelho, na vã
esperança dele ser mágico, e nos
perguntamos: como voltar a ser aquela pessoa alegre,
cheia de vida, que sempre gostou de se divertir,
trabalhar e concretizar sonhos?
Queremos muito sair da torre. Então, vamos
a médicos, fazemos exames, procuramos todos
os tipos de tratamento convencional e alternativo.
Tentamos as receitas das avós, dos vizinhos,
garrafadas... Recebemos bênçãos,
passes... Pedimos a Deus... E Nada!
A auto-estima do enxaquecoso vai à zero.
Sentimos vergonha por estarmos doentes, acamados,
por não termos saúde para comparecer
ao casamento do melhor amigo.
Vergonha por desmarcar a reunião com os
clientes em cima da hora por estar com náuseas.
Passamos sete dias por semana com indisposição.
Quem é privilegiado por não ter
este mal é incapaz de entender nossa falta
aos compromissos.
Haveria alguma saída? |